Minhas fotografias não estão funcionando

Fotografia e literatura tem muito em comum. Especialmente poesia.

Poetas são escritores que dizem mais com menos. Eles uma capacidade de síntese enorme sem descartar nada que é importante. Mostram apenas o suficiente para comunicar. E comunicam apenas o que é necessário para que o leitor entenda. Não ficam explicando demais (nem de menos!)

Essa é uma capacidade importante para nós fotógrafos, desenvolvermos. Nossa “mídia” é um quadro só, na maioria das vezes. Temos que ser sintéticos e aprendermos a colocar no “retângulo” somente o que comunica. Temos que aprender a tirar do quadro tudo que distrai, que não informa, que não acrescenta significado. Isso reforça o assunto e cria objetividade na imagem.

Podemos contar histórias com sequências de fotografias. Nesse caso, estaremos nos aproximando mais do cinema do que da poesia. Mas quando a proposta for uma foto e só, temos que ser poetas visuais. Claros, objetivos e sintéticos. Isso é difícil! Ai!

Mas nem tudo aqui é só “essa” dificuldade. Existem mais duas! Ai, Ai.

De maneira geral, as pessoas tem a tendência de ver uma fotografia e quererem traduzi-la em uma frase ou mensagem. Não existe necessariamente a correspondência direta de uma cena para um texto. Artes visuais, como pintura, escultura, arquitetura, fotografia (quando em forma de arte)… tem que comunicar, mas não necessariamente serem traduzidas em um texto. Se fosse pra contarmos algo como um texto conta, porque eu usaria a fotografia?! Usaria um texto!

Guardadas as devidas peculiaridades, é a mesma dificuldade que muita gente tem com arte abstrata. A comunicação deve recebida e não explicada. Até mesmo com arte realista e figurada. Posso e devo sentir, perceber, intuir… A obra visual deve me sugerir, apontar, influenciar, persuadir, dar dicas… E isso vai acontecer de maneiras variantes de espectador para espectador, mas a mensagem central será mantida.

Muitas vezes a comunicação usa a sensação, a estranheza, o choque, o impacto… para fazer o observador sentir e levá-lo para onde o artista intenciona. Isso é mais belo e eficiente do que colocar um texto pra “dar uma força pra fotografia”.

Eu costumo dizer que arte visual não tem que dar entrevista! Tem que ser vista! Se você está tendo que dar muita explicação sobre o significado de uma fotografia pra o seu observador, ela não está comunicando! Escreva um texto sobre o assunto e isso vai ser mais eficiente. Brincadeira, não escreva, não. Apague a foto e tente fazê-la melhor! rsrs

A terceira dificuldade: O fotógrafo acha que a fotografia está dizendo o que ele quer que ela diga, mas o observador não acha . Isso significa, muito provavelmente, que o observador está certo. É muito comum.

Quando olhamos uma fotografia que fizemos, não temos apenas aquela imagem na nossa frente, temos todo o contexto (visual, factual e emocional). Estivemos lá, sentimos o ambiente, fomos atraídos para fazer aquele Click! Mas o observador não. Ele tem que tirar tudo isso do que está vendo. A imagem tem que trazer isso até ele. Será que está trazendo? A fotografia sempre tem mais conteúdo, para o fotógrafo do que para o observador.

Por isso é importantíssimo termos um certo distanciamento emocional sobre a imagem. Temos que ser críticos de nossa própria obra. Isso é fundamental. Não tenha pena de uma fotografia que não funcionou! Aperte DELETE, sem dó! Seja seu mais cruel editor. Se alguém te disser que não funcionou, por mais bela que você a considere, pense sobre isso com sensatez e espírito crítico. Não fique na defensiva. Isso vai amadurecer seu olhar e consequentemente, sua capacidade de comunicação.

Quando eu era criança, tive um professor de xadrez, que sempre dizia pra quem perdia a partida: “Quem perdeu, aprendeu mais”. Ele me disse isso muita vezes! rsrs. Sensacional e realista, nunca vou me esquecer. Se a fotografia não deu certo, não desanime, pense no que deu errado! É uma chance de ouro que sua própria imperfeição como fotógrafo está te dando.

Depois de registrarmos a cena temos que pensar:

1-Eu sei o que quero comunicar?

2-O observador terá os elementos necessários para sentir ou perceber o que eu quero que ele sinta ou perceba?

3-Existem elementos nessa imagem que distraem ou deixam o assunto ambíguo?

4-Essa fotografia informa um assunto com precisão e objetividade?

Repare que nessas questões temos poucas implicações técnicas em si. Podemos fazer essas perguntas a nós mesmos sobre fotografias produzidas com um celular ou com uma grande câmera. É muito mais uma questão de postura analítica diante da imagem do que de recursos técnicos. É óbvio que técnicas e recursos do equipamento utilizado podem (e certamente irão) influir no alcance dos objetivos, facilitando ou dificultando. Mas o olhar se desenvolve aí: olhando atentamente!

Enfim, se você quer ser um “poeta visual” tem que ser emocional (perceber com sensibilidade a mensagem) e racional (utilizar as formas corretas de comunicação) de forma equilibrada, assim será EFICIENTE!

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